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Consumo Eficiente de Energia Eléctrica – Comportamento do Consumidor

Cada vez mais a energia eléctrica é essencial nas nossas vidas. Apercebemo-nos deste facto logo que ela falha! São, por exemplo, os alimentos que se estragam, a escuridão que impossibilita a realização das nossas actividades, o entretenimento (ex. Televisão, computadores, etc.) que se limita, a produção do país que paralisa... A utilização de energia eléctrica é tão importante que já é por vezes considerada um indicador económico.

Tipicamente, a energia eléctrica dos países é gerada em centrais hidroeléctricas (barragens), termoeléctricas (queima de combustível) e/ou a partir de painéis solares e de aerogeradores (energia eólica). Como alternativa, usam-se os geradores diesel, cuja capacidade (em KVA) depende da carga a alimentar. Salienta-se que a tendência global é investir em energias renováveis (ex. solar, eólica, etc.), dadas as vantagens económicas e ambientais a longo prazo.

O consumo de energia eléctrica cresce a cada dia que passa, pois somos cada vez mais e regularmente adquirimos novas aplicações eléctricas (ex. electrodomésticos, electrobombas, maquinaria industrial, etc.). Assim, há necessidade de se estimar o consumo para que se possa antecipar a capacidade necessária de produção. O ideal é que a capacidade de produção seja sempre superior ao consumo, caso contrário é necessário fazer restrições. Por outro lado, destaca-se o importante papel do transporte e da distribuição da energia eléctrica. Ou seja, não basta produzir energia suficiente, é necessário ser capaz de a transportar em segurança da central até ao consumidor final.

Quando a capacidade de produção é insuficiente para satisfazer a demanda de energia eléctrica é necessário aumentar a produção (ex. mais centrais) e/ou reduzir o consumo (ex. desligar as cargas que não estão a ser utilizadas). O aumento de produção está associado a elevados custos e tempo para instalação das centrais, o que obriga a um planeamento atempado. Por outro lado, o comportamento do consumidor é extremamente importante uma vez que pode evitar o desperdício de energia, o que resulta em mais população a ter acesso aos benefícios da energia eléctrica, sem custos adicionais. 

Grandes quantidades de energia eléctrica são desperdiçadas todos os dias. Ou seja, a produção já é insuficiente e ainda desperdiçamos o que temos. Assim, é necessário consumir de forma mais eficiente, além do aumento da produção, para que se atinja a sustentabilidade do sistema. Salienta-se que o cidadão joga um papel directo no consumo eficiente, mas indirecto na produção de energia eléctrica (ex. indicador de demanda).

Assim, este artigo pretende destacar o papel do comportamento do cidadão no consumo eficiente de energia eléctrica. Trata-se de um processo e, portanto, não pode ser obtido instantaneamente. Nesse sentido, é de extrema importância a consciencialização (ex. campanhas de informação pela televisão, pela rádio, nas escolas, no serviços, por e-mail, por SMS, etc.) e motivação (ex. incentivos, prémios, etc.) dos consumidores sobre como o seu comportamento afecta o sistema eléctrico nacional. Poderão, por exemplo, existir horários mais económicos, fora do pico da demanda. Consegue-se assim melhor distribuir o consumo ao longo do dia. Contudo, a ideia central a passar é que se todos consumirmos apenas o que necessitamos, poupamos dinheiro, contribuímos para a melhoria do ambiente e mais cidadãos poderão ter acesso à energia eléctrica. 

Apresentam-se a seguir alguns conselhos práticos ao consumidor que contribuirão para um consumo mais eficiente de energia eléctrica:

  • Desligue as luzes e aparelhos quando não estão a ser utilizados;
  • Use lâmpadas de baixo consumo;
  • Onde possível, instale detectores de movimento para accionar lâmpadas;
  • Sempre que possível utilize a luz do sol (abra as cortinas);
  • Regule os aparelhos de ar-condicionado para a temperatura desejada (ex. 22 ºC) em vez do mínimo (ex. 16 ºC) e mantenha o espaço fechado. A manutenção dos mesmos também é de extrema importância;
  • Adquira equipamentos energeticamente eficientes (ex. Selo “Energy Star”);
  • Evite deixar em “stand-by” os equipamentos (ex. TV);
  • Use temporizadores e regule os termóstatos dos aquecedores eléctricos de água;
  • Evite utilizar a máquina de lavar roupa sem estar devidamente cheia;
  • Verifique o consumo de energia eléctrica (ex. sistema pré-pago).

Assim, no caso de Angola (e não só), pensa-se que ainda há muito a fazer neste no domínio do consumo eficiente de energia eléctrica. Julga-se ainda que se todos contribuirmos, para a mesma produção, mais pessoas poderão ter acesso à energia eléctrica.

 

 

Ricardo Queirós

Doutorado em Engenharia Electrotécnica e de Computadores

Investigador na área de Instrumentação e Medidas

Faculdade de Engenharia - Universidade Agostinho Neto

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Maus Tratos na Infância

Pelo menos em tese, pensar-se-ia na criança como um ser inserido no seu meio familiar do qual derivam, de forma natural e espontânea, todas as atenções afectivas e materiais que necessita para o seu normal desenvolvimento. Todavia, há ocasiões em que este mesmo núcleo familiar se torna hostil para com o menor, resultando no abandono, nos maus-tratos, nos abusos sexuais e, muitas vezes, até na morte.

Assim, os maus-tratos têm sido racionalizados, através dos tempos, pelas mais variadas justificativas conhecidas, desde práticas e crenças religiosas, motivos disciplinares e educacionais e, em grau mais amplo, com fins económicos. As referências a abusos físicos extremos nos menores para conseguir retorno económico dos seus ascendentes, não se podem considerar uma novidade. Foram frequentes durante a Revolução Industrial, mesmo em países tidos como mais desenvolvidos da época, como Grã-Bretanha e Estados Unidos.

A comunicação social, em suas diversas formas, não raro regista, com vívidos detalhes, casos de crianças deixadas acorrentadas em cómodos escuros, diariamente, por semanas ou durante meses; crianças de pequena idade que são limitadas ao seu próprio berço por dias e dias; crianças que são penduradas pelos seus punhos em canos de chuveiro ou suportes semelhantes; crianças que sofrem exposição prolongada a temperaturas extremas, e que incluem forçar os infantes a ficarem sentados, nus, sobre blocos de gelo; castigos térmicos diversos, indo desde a queimadura com brasa de cigarros, ou a obrigatoriedade de "secar as calças molhadas", sentando encima de uma estufa, ou mergulhando em água fervendo a mão esquerda que, obstinadamente, tenta segurar o lápis para escrever, no caso de uma criança canhota...

Já houve casos em que a morte se deu por inalação de pó de pimenta-preta e outra por pó de pimenta malagueta (gindungo), ministradas por razões "disciplinares", sem contar com os casos, que não são poucos, de crianças falecidas por inanição (falta de alimentação), à espera de que mantidas sem comer, mudassem seus comportamentos...

Infelizmente, longe de se tratar de esporádicos registos históricos que apenas ocorrem em outros países, quase que a diário vemos as TVs dos nossos lares invadidas por figuras de tenra idade - 4 a 6 anos -, trabalhando muito para obter pequenos ganhos, de cêntimos por dia, trabalhando, muitas vezes acorrentados- por correntes materiais ou simplesmente morais -, ora nas pedreiras obtendo cascalho manualmente, ora nas plantações cortando, carregando e alimentando as moendas para extrair sisal, ora, nos fornos de carvão, ora nas calçadas elegantes da orla marítima, prestando-se ao "jogo" dos interesses maiores do turismo sexual, figuras amorfas formando uma fantasmagórica legião de esquecidos, de crianças sem hoje e sem amanhã. 

 

Quantas Crianças Recebem Maus-tratos?

Estatísticas dos Estados Unidos, estimam que o número de crianças que eram encaminhadas para os serviços de protecção da infância, anualmente, oscilava entre 250.000 e 500.000, já em 1966. Esse número cresceu para 1.200.000 casos em 1986, duplicando para 2.400.000 atendimentos por ano, em 1996. No Brasil, não existem estatísticas nacionais fidedignas, apenas registros esparsos de serviços isolados ou de núcleos de atendimento, que estão longe de espelhar a realidade atual no País, antes somente de micro-regiões. O primeiro caso noticiado no Brasil, foi por Canger Rodrigues et al., em 1974, sendo logo seguido por três observações de Teixeira (1978, 1980), um dos pesquisadores que mais tem dado a devida atenção que este quadro merece, designando-o como 'SIBE -Síndrome do Bebé Espancado'. Esta designação decorre de que a agressão mais frequente é a mecânica, isto é, a bofetadas, socos, bicos, por vezes dentadas, terminando por atirar o bebé no chão, ou girá-lo pelo ar, preso pelos pés e, às vezes, escapando das mãos... batendo a cabeça na parede, em móveis, etc. Todavia, outras vezes a agressão é térmica: os agentes queimam as crianças com água fervente ou com cigarros, quando não com a chapa do fogão...! Em alguns casos a agressão é sexual: os pais praticam actos sexuais com seus filhos; para outros a agressão é química, dando bebidas alcoólicas ou medicamentos para a criança dormir sem incomodar, e outros, enfim, negam alimentos e água, deixando a criança morrer de fome e de sede, não raro agredindo-a, também e paralelamente.

Trata-se, em geral, de um sério problema, de uma agressão inacreditável da mãe (ou do pai, madrasta, padrasto, companheiro) sobre a criança, o bebé, e, o que é pior, efectuada dentro da própria casa, assumindo, pela repetição, o aspecto de uma verdadeira tortura e transformando, desta maneira, o que deveria ser o lar, numa prisão, numa armadilha sem escapatória!

Resultado: o bebé não anda e não fala. E como consequência: 

a) não reage, nem se defende, por não possuir condição física suficiente; 

b) não escapa, já que não anda, nem corre e, 

c) não denuncia, uma vez que não fala.

Daí se afirmar que, para uma mãe ou para um pai malvados, para uma mãe ou para um pai que tenham perdido o mais elementar instinto de conservação da prole, o bebé uma vítima "ideal": apanha frequentemente, sem poder escapar ou denunciar seu agressor, o que torna ainda mais fácil a repetição da agressão que, assim, permanece oculta. E isto não é apenas com os bebés, mas acontece de maneira semelhante com as crianças de baixa idade e mesmo em idade escolar.

Neste trabalho, analisa-se o comportamento agressivo contra as crianças na base geográfica da 8ª RegiãoAdministrativa do Estado de São Paulo (Brasil), no ano de 1996, com fulcro nos dados obtidos no Sector de Perícias Médico-Legais de SãoJosé do Rio Preto e nos Serviços de Emergência, Pronto-Socorros e sucedâneos locais. Assim, os resultados são os seguintes:

- FAIXA ETÁRIA: Frequência

  • 0-6 anos: 60
  • 7-12 anos: 25
  • 13-18 anos: 15

- AUTORIA DOS MAUS TRATOS: Frequência 

  • Mãe: 43
  • Pai: 33
  • Mãe+pai: 10
  • Responsável: 14

- PRINCIPAIS CAUSAS: % 

  • Alcoolismo: 50 
  • Desorganização Familiar: 30
  • Distúrbios Psiquiátricos: 10 
  • Distúrbios de Comportamento: 10

 

CLÍNICA DOS MAUS-TRATOS: Atitude da criança

O procedimento clínico mais simples - a observação, silenciosa e desarmada - geralmente é suficiente obter a maioria dos subsídios necessários para, na suspeita de maus-tratos, estabelecer a sua realidade e permitir a sua caracterização. Dados como a desnutrição e o retardo pondero-estatural, de aparecimento frequente, apontam para deficiências nutricionais e/ou hipo-alimentação, bem como para a privação afetiva.

Deve-se atentar para o facto, quando a criança, ao ser examinada pelo médico, tanto no ambulatório, quanto no domicílio, apática ou triste. Outras vezes, mostra-se receosa ou francamente temerosa, protegendo a sua cara com mãos e antebraços ou fechando os olhos quando o médico se aproxima, como forma espontânea de defesa perante situações que imagina semelhantes àquelas em que lhe fora imposto um castigo ou em que tenha recebido um trauma.

 

O DIAGNÓSTICO DOS MAUS-TRATOS

Longe de ser uma tarefa específica de especialistas, realizar o diagnóstico da ocorrência de maus-tratos éuma tarefa/dever de qualquer pessoa, no exercício de sua cidadania.

 

Quando ter a suspeita 

Talvez uma atitude esperada e uma capacidade centralizada de observação, sejam ferramentas suficientes para por mãos à obra. Nesta linha de raciocínio, deve-se suspeitar de tudo e de todos - uma verdadeira dúvida sistemática - mas, principalmente, das lesões esquisitas ou mal explicadas, mormente quando não se coadunem com as "explicações" dadas pelos familiares ou tutores para:

  • equimoses múltiplas, em várias regiões do corpo, com cores diferentes ("espectro equimótico"). 
  • equimoses com a forma de "marcas de dedos" nos braços e no tórax; 
  • hematoma orbitário ("olho roxo");
  • equimoses em locais pouco expostos; 
  • lesões atuais e/ou deformações cicatriciais nas orelhas ("orelha de boxeador" ou "orelha em couve-flor"); 
  • contusões na região frontal ou no queixo; 
  • lacerações de lábios (frénulo labial) e/ou arrancamento de peças dentárias ("dentes de leite"); "marcas de mordidas, atribuídas a um "excesso de carinho"; 
  • queimaduras por cigarro; queimaduras através de líquidos; 
  • equimoses precisas, imprimindo o formato dos objectos que as produziram; 
  • lesões de órgãos genitais;
  • fraturas de ossos longos com diferente cronologia de consolidação; 
  • referências hospitalares de traumatismo crânio-encefálico (TCE), ou de traumatismos abdominais com lesões graves de órgãos internos.

 

Quando redobrar a atenção

O observador deve desconfiar, quando da ocorrência dessas lesões esquisitas, principalmente naquelas situações em que:

  • Existam relatos diferentes dos responsáveis, interrogados isoladamente e sem comunicação entre eles, sobre a origem das lesões.
  • Exista demora inexplicável dos responsáveis em procurar o atendimento médico cuja necessidade, na maioria das vezes, é evidente até para os olhos leigos, face à gravidade das lesões.
  • Exista incongruência entre as explicações simplistas sobre a origem das lesões e a multiplicidade e/ou gravidade dos resultados clínicos, traumáticos e radiográficos.
  • Tenha havido procura por atendimento médico através de profissionais diversos ou hospitais diferentes, nos distintos e sucessivos episódios traumáticos (visando evitar o cruzamento das informações dos registros ou dos prontuários médicos).
  • Seja apresentada uma criança ou bebé desnutrido e descuidado, configurando a Síndrome da Criança Negligenciada.

 

O QUE FAZER

Nesses casos, a conduta deve ser:

  • Levar a criança para o hospital (Pronto Atendimento, Emergência etc.). 
  • Radiografar o corpo inteiro. 
  • Efectuar uma junta entre os Médicos envolvidos (pediatra, ortopedista, radiologista e legista), psicólogo e assistente social. 
  • Internar (quando confirmado o diagnóstico de Sídrome do bebé espancado). 
  • Convocar ou comunicar a autoridade policial. 
  • Comunicar, se possível, a autoridade judicial ou o promotor público (Protecção de Menores) principalmente em face do Estatuto da Criança e do Adolescente.

 

Jorge Vanrell

MD, DSc, LLB, BSE, Médico Legista, Especialista em Medicina do Trabalho

Professor de Psicopatologia no Curso de Psicologia Clínica da FARFI, São Paulo, Brasil

Professor de Medicina Legal no Curso de Direito das FIRP, São Paulo, Brasil

 

Artigo original publicado na Revista online Cérebro e Mente
http://www.cerebromente.org.br/n04/doenca/infancia/persona.htm
Nota: Texto adaptado e convertido para a ortografia praticada em Angola (pré-acordo ortográfico da língua portuguesa).
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A Evolução da Inteligência Humana

Um dos mais fascinantes temas da ciência diz respeito a como surgiu a inteligência humana ao longo da evolução dos grandes primatas aos hominídeos, chegando até o ser humano moderno. A inteligência é um tema fascinante justamente porque nos dá a chave para o tesouro do entendimento sobre nós mesmos, e de como a selecção natural foi capaz de produzir tamanha maravilha como o cérebro humano e suas assombrosas capacidades num tempo evolucionário tão curto. Também fornece uma explanação sobre a natureza da nossa singularidade no reino animal e porque nós somos assim hoje.

De facto, muitas facetas da evolução da inteligência humana são ainda matéria de considerável mistério, porque ela não pode ser observada directamente no registo paleontológico, tal como ocorre com um osso ou os dentes, por exemplo. A evidência reunida por cientistas sobre a inteligência é obtida indiretamente, a partir da observação do aumento do tamanho da capacidade craniana, de artefactos produzidos como resultado da inteligência humana, tais como a fabricação de ferramentas, a caça cooperativa, a guerra, o uso do fogo e o cozimento de alimentos, a arte, o enterro dos mortos, e poucas outras coisas mais.

O aparecimento da inteligência, juntamente com a linguagem (e ambas são indissoluvelmente entrelaçadas, como veremos adiante), foi um passo espectacular da evolução animal. Ela apareceu em primatas, mas poderia ter sido desenvolvida igualmente bem em outros mamíferos avançados, tais como golfinhos. Por que ela se desenvolveu em primatas e não em outros gêneros animais? Provavelmente pela inerente instabilidade de ambientes terrestres, quando comparados com os ambientes aquáticos, e quase certamente devido a uma série de mudanças dramáticas no clima africano em certos pontos da história geológica. Portanto, os fenómenos probabilistícos podem ser muito bem a explicação porque estamos agora na posição de sermos os mais inteligentes de todos os animais da Terra.

Este passo evolucionário foi espectacular porque deu origem a um círculo cada vez mais rápido de retroalimentação positiva entre a evolução cultural (trazida pela linguagem) e o desenvolvimento posterior do cérebro, ao aumentar enormemente o sucesso reprodutivo e as chances de sobrevivência do organismo assim armados com um cérebro capaz de alta flexibilidade, adaptabilidade e capacidade de aprendizagem. Num período de um a dois milhões de anos (praticamente um piscar de olhos em termos de tempo geológico), este poderoso impulso de evolução neural levou ao que somos hoje e ao que o homem foi nos últimos 100.000 anos.

Estaria a inteligência presente apenas nos seres humanos? É claro que não. A inteligência humanas parece ser composta de um número de funções neurais correlacionadas e que operam cooperativamente, muitas das quais já estão presentes em outros primatas, tais como a desteridade manual, visão colorida estereoscópica altamente sofisticada e acurada, reconhecimento e uso de símbolos complexos, coisas abstratas que representam outras) memória de longo prazo, etc. De facto, a visão científica actual é de que existem vários graus de complexidade de inteligência presente em mamíferos e que nós compartilhamos com eles muitas características que anteriormente pensávamos que eram únicas ao homem (tais como linguagem simbólica, como já foi provado que ocorre em primatas).

Os cientistas têm levantado hipóteses sobre a existência de uma "massa crítica" de neurónios como sendo o pré-requisito para a "explosão" evolucionária da inteligência. Em outras palavras, abaixo de um certo número de neurónios (ou tamanho do cérebro), a inteligência é altamente limitada e não leva à invenção, imaginação, comunicação social simbólica e outras coisas que não existem em cérebros não-humanos. Um número grande de factores evolucionários convergentes determinaram um rápido aumento no tamanho e complexidade do cérebro dos hominídeos e estes levaram à primeira espécie verdadeiramente Homo. A massa crítica foi atingida e após isso foi apenas uma questão de evolução quantitativa.

Mas o que é inteligência? Antes de embarcarmos numa viagem rumo ao entendimento de sua evolução, devemos tentar conhecer melhor o objecto da nossa questão.

Parece que existem tantas definições de inteligência quanto existem cientistas a trabalhar no campo. De acordo com a Enciclopédia Britânica (EB), "é a habilidade de se adaptar efectivamente ao ambiente, seja fazendo uma mudança em nós mesmos ou mudando o ambiente ou buscando um novo ambiente". Esta é uma definição inteligente, porque ela incorpora os conceitos de aprendizagem (uma mudança em nós mesmos), manufactura e abrigo (mudança do ambiente) e migração (encontrando um novo ambiente). A inteligência é uma entidade multifactorial, envolvendo coisas tais como linguagem, pensamento, memória, raciocínio, consciência (a percepção de si mesmo), capacidade para aprendizagem e integração de várias modalidades sensoriais. De modo a nos adaptarmos efectivamente, o cérebro deve usar todas estas funções. Portanto, "inteligência não é um processo mental único, mas sim uma combinação de muitos processos mentais dirigidos à adaptação efectiva do ambiente", prossegue a definição da EB.

Reconhecer quais são os componentes da inteligência é muito importante em termos de montar uma "teoria da inteligência". Uma das teorias mais sólidas e interessantes foi proposta por Sternberg (veja a seguir as componentes da inteligência) e relaciona-se directamente ao que nós sabemos sobre a evolução. Ele propõe que a inteligência é feita de três aspectos integrados e interdependentes: no mundo interno, as relações com o mundo externo, as experiências que  relacionam ao mundo externo e o interno.

 

As Componentes da Inteligência

O mundo interno: cognição

  1. processos para decidir o que fazer e o quão bem foi feito
  2. processos para fazer o que foi decidido ser feito
  3. processos para aprender como fazer

O mundo externo: percepção e acção

  1. adaptação a ambientes existentes
  2. modelação de ambientes existentes em novos
  3. a selecção de novos ambientes quando os antigos se provam insatisfatórios

A integração dos ambientes internos e externos através da experiência

  1. a habilidade de se adaptar às novas situações
  2. processos para criar objetivos e para planeamento
  3. mudança dos processos cognitivos pela experiência externa

Um dos melhores exemplos que demonstram os três aspectos da inteligência é a caça cooperativa nos hominídeos. O mundo externo é caracterizado por um extenso terreno tridimensional onde existem animais muito rápidos, muito grandes ou muito perigosos como presas em potencial. Aprender como emboscar a presa, como aproximar-se dela e como matá-la com um machado de pedra são habilidades cognitivas. Ser capaz de caçar em vários ambientes, mover-se para outras áreas quando a caça se torna escassa, ou fabricar armas de caça, armadilhas para animais, etc, são exemplos de processos relacionados aos mundos interno e externo.

Finalmente, ser capaz de se comunicar e coordenar a caça com outros seres humanos, delinear uma estratégia para caçar mais efectivamente, e desenvolver e sustentar todo o processo de caça por meio da cognição, percepção e acção, são exemplos da integração entre os mundos interno e externo.

Quanto da inteligência humana, pensamento, raciocínio, imaginação e planeamento são devidos à linguagem? Praticamente tudo,  poderíamos dizer. De facto, esses processos são uma espécie de "processamento interno da linguagem", como já foi afirmado. Um dos mais importantes especialistas em evolução humana, Ian Tattersall, da Inglaterra, propôs que o sucesso da humanidade foi largamente o resultado da linguagem, com toda a sua riqueza de sintaxe e semântica. A linguagem, portanto, é fundamental para a nossa capacidade de pensar, e o intelecto humano e as conquistas que explicamos neste artigo seriam impossíveis sem a linguagem. Para Tattersall, a linguagem é "mais ou menos sinónimo do pensamento simbólico" e isto faz toda a diferença.

Neste contexto, aparece uma das mais importantes propriedades da mente humana que é a consciência, ou auto-percepção. Nós não temos muitas evidências se elas existem em outros animais, e quando ou onde elas aparecem em humanos pela primeira vez. Será a auto-consciência um produto da evolução? Será que ela é vantajosa para a adaptação e sobrevivência? A resposta é sim. A auto-consciência permite-nos construir a realidade além de meras sensações físicas, como imaginar uma situação e as consequências das nossas acções, antes que qualquer coisa aconteça. 

 

Renato M.E. Sabbatini

Doutorado em Neurofisiologia

Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo, Brasil

Faculdade de Ciências Médicas da Universidade Estadual de Campinas, Brasil

 

Artigo original publicado na Revista online Cérebro e Mente
http://www.cerebromente.org.br/n12/mente/evolution/evolution.htm
Nota: Texto convertido para a ortografia praticada em Angola (pré-acordo ortográfico da língua portuguesa).
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Entendendo os Rankings de Universidades

 

Ultimamente, tem-se falado muito sobre a classificação (ranking) de universidades a nível mundial. Trata-se claramente de um tema bastante controverso, uma vez que há quem os ame, como também há quem os odeie!

A influência dos rankings é cada vez maior. Contudo, a maior parte das pessoas parece não saber qual a sua real utilidade, quem os compila e como são elaborados. Assim, este artigo pretende contribuir para o esclarecimento do processo de classificação, apresentar alguns resultados de 2016, assim como expressar a opinião do autor sobre os vários aspectos relacionados à classificação de universidades. 

Em primeiro lugar, salienta-se que os rankings apenas englobam uma pequena percentagem (< 2%) de todas as universidades do mundo. Há dados que são enviados pela universidade participante (ex. número de estudantes internacionais versus número de estudantes nacionais), porém, outros dados são obtidos em bases de dados independentes (ex. número artigos científicos publicados em revistas indexadas).

Os rankings de universidades têm sido importantes para estudantes, universidades (ex. gestores, professores, investigadores, etc.), governos e sociedade em geral. Resumidamente, os rankings permitem: monitorização de desempenho, realização de comparações, ajuda a estudantes a decidir em que universidade estudar, distribuição de financiamento por parte do governo, envio de bolseiros para as “melhores” universidades, influência na concepção de políticas/reformas do governo, incentivo à divulgação de dados académicos, influência na escolha de parceiros/colaboradores, influência na reputação (visibilidade e credibilidade) da instituição (marketing), identificação de pontos fortes e fracos, e atracção de melhores estudantes, professores e investigadores.

Os rankings são tipicamente elaborados anualmente. Isto deve-se ao facto de os dados relativos aos indicadores utilizados mudarem de ano para ano. Assim, é necessário consultar os rankings anualmente. Todavia, é pouco provável que, de um ano para o outro, uma universidade de topo altere o seu lugar significativamente em determinado ranking. Por outro lado, a reputação de uma universidade está de alguma forma ligada à sua idade. Geralmente, as universidades mais antigas têm maior reputação do que as novas. Contudo, há casos de universidades relativamente recentes a ocuparem boas posições nos rankings

Destaca-se ainda que é possível elaborar rankings organizados por área de conhecimento, por continente, por país, etc. É assim possível fazer comparações mais específicas. Por exemplo, no ranking geral uma universidade pode estar numa posição acima de uma outra, podendo estar, no entanto, bastante abaixo num ranking organizado numa dada área de conhecimento. Assim, dependendo do objectivo, é importante verificar não apenas o ranking geral, mas também os específicos.

Embora existam vários rankings de universidades, destacam-se os mais conceituados: 

1) Classificação Académica das Universidades Mundiais (Academic Ranking of World Universities - ARWU), também conhecido por “Ranking de Xangai” elaborado desde 2003 pela Universidade Jiao Tong de Xangai (China);

2) Classificação das Universidades Mundiais da Times Higher Education (Times Higher Education (THE) World University Ranking), elaborado desde 2004 pela revista THE (Reino Unido);

3) Classificação das Universidades Mundiais da QS (QS World University Ranking), elaborado desde 2004 pela empresa Quacquarelli Symonds (Reino Unido). 

Para classificar as universidades, a metodologia utilizada deve ser científica, estável e transparente, embora não haja uma metodologia perfeita.  Assim, uma vez que cada ranking utiliza os seus próprios indicadores, a comparação de resultados deve ser feita com bastante atenção. Julga-se que a verificação dos 3 referidos rankings resulta numa melhor estimativa da verdadeira classificação de uma dada universidade. Por outro lado, pensa-se que é crucial entender os indicadores utilizados em cada ranking.  

Assim, de forma a facilitar a compreensão, apresentam-se resumidamente os indicadores utilizados pelos 3 referidos rankings:

 

ARWU ranking (6 indicadores) 

1. Qualidade de educação: Número de antigos estudantes que ganharam o prémio nobel ou medalhas por área de conhecimento (10%)

2. Qualidade dos docentes/investigadores: Número de docentes/investigadores que ganharam o prémio nobel ou medalhas por área de conhecimento (20%)

3. Qualidade dos docentes/investigadores: Número de investigadores altamente citados em 21 áreas de conhecimento (20%)

4. Resultados da investigação: Número de artigos publicados em revistas sobre natureza e ciência (20%).  Nota: Este indicador não é considerado no caso das universidades especializadas em humanidades e ciências sociais, sendo o peso distribuído pelos outros indicadores.

5. Resultados da investigação: Número de artigos indexados na Science Citation Index - Expanded and Social Sciences Citation Index (20%)

6. Desempenho académico per capita da universidade (10%)

 

THE ranking (13 indicadores)

  • Ensino (30%) 

1) Reputação (inquérito) (15%)

2) Rácio docentes/investigadores versus estudantes (4.5%)

3) Rácio doutores versus licenciados (2.25%)

4) Rácio doutoramentos atribuídos versus docentes (6%)

5) Receitas da instituição (2.25%)

  • Investigação (30%)

6) Reputação (inquérito) (18%)

7) Receitas (investigação) (6%)

8) Produtividade (investigação). Número de artigos publicados em revistas científicas indexadas (6%)

  • Citações

9) Influência da investigação (30%)

  • Vertente Internacional (docentes, estudantes, investigação) (7.5%)

10) Rácio Estudantes internacionais versus nacionais (2.5%)

11) Rácio Docentes/Investigadores internacionais versus nacionais (2.5%)

12) Colaboração internacional (2.5%)

  • Receitas das Indústria

13) Transferência de conhecimento (2.5%)

 

QS ranking (6 indicadores) 

1. Reputação académica - questionário a académicos sobre as universidades (40%)

2. Reputação do ponto de vista do empregador - questionário aos empregadores sobre as universidades (10%)

3. Rácio número de estudantes versus número de docentes/investigadores (20%)

4. Citações por docente/investigador (20%)

5. Rácio número de docentes/investigadores internacionais versus nacionais (5%)

6. Rácio número de estudantes internacionais versus nacionais (5%)

  

Como se pode observar, cada ranking é elaborado de acordo com os seus próprios indicadores, sendo os mesmos bastante diferentes. Pode-se concluir que estes rankings assentam essencialmente em indicadores sobre ensino, investigação, empregabilidade, transferência de conhecimento e internacionalização. Salienta-se ainda que é necessário considerar a definição exacta de cada indicador.

Consultando os referidos rankings relativos ao ano de 2016, chega-se à conclusão que os Estados Unidos da América (EUA) lideram os primeiros 10 lugares (ARWU 8/10, THE 6/10, QS 5/10), seguindo-se o Reino Unido (UK) (ARWU 2/10, THE 3/10, QS 4/10). Constata-se ainda que as seguintes universidades (ordenadas pela média das posições nos 3 rankings), constam das primeiras 10 nos referidos rankings

  • Stanford University, EUA (ARWU-2, THE-3, QS-2) (2.3)
  • Harvard University, EUA (ARWU-1, THE-6, QS-3) (3.3)
  • Massachusetts Institute of Technology, EUA (ARWU-5, THE-5, QS-1) (3.7)
  • University of Cambridge, UK (ARWU-4, THE-4, QS-4) (4)
  • California Institute of Technology, EUA (ARWU-8, THE-1, QS-5) (4.7)
  • Oxford University, UK (ARWU-7, THE-2, QS-6) (5)
  • Princeton University, EUA (ARWU-6, THE-7, QS-11) (8)
  • University of Chicago, EUA (ARWU-10, THE-10, QS-10) (10)
  • Institute of Technology Zurich, SUÍÇA (ARWU-19, THE-9, QS-8) (12)
  • University College London, UK (ARWU-17, THE-14, QS-7) (12.7)
  • Imperial College London, UK (ARWU-22, THE-8, QS-9) (13)
  • University of California-Berkeley, EUA (ARWU-3, THE-13, QS-28) (14.7)
  • Columbia University, EUA (ARWU-9, THE-15, QS-20) (14.7)

 

Ou seja, estas universidades são, de acordo com os referidos rankings, as melhores do mundo em 2016. Para referência, apresentam-se a seguir as universidades melhor classificadas (2016) de África, da China, Portugal e do Brasil:

  • Tsinghua University, China (ARWU-58, THE-47, QS-24) (43)
  • Lomonosov Moscow State University (ARWU-87, THE-161, QS-108) (118.7)
  • Universidade de São Paulo, Brasil (ARWU-101:150, THE-201-250, QS-120) (140.7 ?)
  • University of Cape Town, SA (ARWU-201:300, THE-120, QS-191) (170.7 ?)
  • Universidade de Lisboa, Portugal (ARWU-151:200, THE-501:600, QS-330) (327.3 ?)

 

Por outro lado, as universidades africanas que constam em 2016 nos referidos rankings são as seguintes:

  • University of Cape Town, SA (ARWU-201:300, THE-120, QS-191) (170.7 ?)
  • University of the Witwatersrand, SA (ARWU-201:300, THE-201:250, QS-359) (253.7 ?)
  • The American University in Cairo, Egipto (ARWU-, THE-, QS-365) (365)
  • Stellenbosch University, SA (ARWU-401:500, THE-301:350, QS-395) (365.7 ?)
  • University of Kwazulu Natal, SA (ARWU-401:500, THE-401:500, QS-651:700) (484.3 ?)
  • University of Pretoria, SA (ARWU-, THE-501:600, QS-551-600) (526 ?)
  • Makerere University, Uganda (ARWU-, THE-401:500, QS-701+) ( 551?)
  • Cairo University, Egipto (ARWU-401:500, THE-601:800, QS-551:600) (576 ?)
  • Rhodes University, SA (ARWU-, THE-, QS-551:600) (551:600)
  • University of Johannesburg, SA (ARWU-, THE-, QS-601:650) (601:650)
  • University of Ghana, Gana (ARWU-, THE-601:800, QS-701+) ( 651?)
  • Alexandria University, Egipto (ARWU-, THE-601:800, QS-701+) (651 ?)
  • University of Marrakech Cadi Ayyad, Marrocos (ARWU-, THE-601:800, QS-) (601:800)
  • Suez Canal University, Egipto (ARWU-, THE-601:800, QS-) (601:800)
  • University of South Africa, SA (ARWU-, THE-601:800, QS-) (601:800)
  • Al Azhar University, Egipto (ARWU-, THE-, QS-701+) (701+)
  • Ain Shams University, Egipto (ARWU-, THE-, QS-701+) (701+)
  • North-West University, SA (ARWU-, THE-, QS-701+) (701+)
  • University of Western Cape, SA (ARWU-, THE-, QS-701+) (701+)

 

Analisando estes dados, claramente se observa o domínio da África do Sul e do Egipto no contexto africano. Ou seja, das 19 universidades africanas que constam nos referidos rankings de 2016, 10 são sul africanas e 6 são egípcias. Conclui-se ainda que a Universidade de Cape Town foi a melhor classificada em 2016.

Como se pode ainda observar nenhuma universidade angolana consta dos referidos rankings. Considerando os indicadores utilizados, o leitor estará em melhores condições para poder tirar as suas próprias conclusões. Contudo, julga-se que ainda há vários aspectos a melhorar antes que alguma universidade angolana possa constar nos referidos rankings.

Finalmente, podemos concluir que os rankings dependem dos indicadores utilizados e dos pesos a eles atribuídos. Adicionalmente, a estimativa da qualidade de ensino continua a ser a principal limitação dos rankings actuais. Julga-se ainda que os rankings devem ser vistos como estimativas limitadas da qualidade das universidades analisadas. Assim, cabe ao leitor decidir se deve ou não confiar em determinado ranking.  

 

Mais informação

http://www.shanghairanking.com/

http://www.topuniversities.com/

https://www.timeshighereducation.com/

http://www.eua.be/Libraries/publications-homepage-list/Global_University_Rankings_and_Their_Impact.pdf?sfvrsn=4

 

Ricardo Queirós

Doutorado em Engenharia Electrotécnica e de Computadores

Investigador na área de Instrumentação e Medidas

Faculdade de Engenharia - Universidade Agostinho Neto

E- Este endereço de email está protegido contra piratas. Necessita ativar o JavaScript para o visualizar.

https://www.linkedin.com/in/ricardo-queirós-5449106

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A Síndrome de Burnout ou a Falta de Humanização nos Nossos Hospitais?

 

Nas condições actuais de desenvolvimento do nosso sistema de saúde é comum assistirmos a actos e atitudes que se configuram como total ou parcial insensibilidade, falta de profissionalismo, falta de humanismo e outros valores por parte dos profissionais da saúde em relação aos pacientes que supostamente devem assistir e atender.

Começaríamos este artigo com algumas perguntas que o próprio texto responderá:

- Ao que se deve a insensibilidade de certos profissionais da saúde em relação ao sofrimento dos pacientes e dos seus familiares?

- Que efeito tem a sobrecarga, a pressão de trabalho e as longas jornadas de trabalho dos profissionais de saúde no seu desgaste emocional e humano?

- Há conflito de papéis e de interesses na relação profissional-paciente?

- A falta de suporte e de valorização da classe pela sociedade e do estado, propicia a indiferença destes profissionais perante o sofrimento e a morte dos pacientes?

- Que factores podem estar na base da Síndrome de Burnout em profissionais da saúde dos nossos hospitais?

A Síndrome de Burnout (SB) é uma doença ocupacional e que, segundo a OMS, predomina sobre os profissionais da saúde como: médicos, enfermeiros, assistentes sociais, dentistas e fisioterapeutas, além de professores, policiais, bombeiros e demais profissionais que estão sujeitos ao contacto diário com o público e que têm grande carga emocional.

Entre os diferentes factores que podem comprometer a saúde do trabalhador, o ambiente de trabalho é apontado como gerador de conflito, quando o indivíduo percebe o hiato existente entre o compromisso com a profissão e o sistema em que está inserido.

Essa síndrome, conceptualizada como estresse laboral crónico, tem como principais características o desgaste emocional, a despersonalização e a reduzida satisfação pessoal ou sentimento de impotência do trabalhador, que ocorre quando o indivíduo não possui mais estratégias para o enfrentamento das situações e conflitos do trabalho.

Burn, em inglês, significa queimar, out, é algo fora, exteriorizado. O Burnout é caracterizado por um conjunto de sinais e sintomas físicos e psíquicos, consequentes da má adaptação ao trabalho e com intensa carga emocional e pode estar acompanhado de frustração em relação a si e ao trabalho.

A expressão burnout, serve para designar aquilo que deixou de funcionar por exaustão de energia, constitui actualmente um dos grandes problemas psicossociais, despertando interesse e preocupação por parte da comunidade científica e das empresas, devido à severidade das suas consequências, quer ao nível individual, quer ao nível organizacional. De facto, o burnout sendo um estado de esgotamento, decepção e perda do interesse pelo trabalho, produz sofrimento no indivíduo e tem consequências sobre o seu estado de saúde e o seu desempenho, pois passam a existir alterações pessoais, comportamentais e organizacionais.

Esta síndrome acomete, geralmente, os profissionais que trabalham em contacto directo com pessoas, sendo predominante nos profissionais de saúde, o burnout afecta os enfermeiros, em diferentes partes do mundo e em diversos contextos de trabalho, levando-os a desenvolver sentimentos de frustração, frieza e indiferença em relação às necessidades e ao sofrimento dos seus utentes e familiares.

Acredita-se que, se os enfermeiros conhecerem as características, consequências e estratégias de prevenção do burnout, poderão ter uma maior satisfação laboral e prestar cuidados de melhor qualidade e humanismo aos utentes.

A escolha do tema advêm da necessidade de se  abordar o fenómeno, visto que tem se manifestado muito nos últimos tempos nas nossas unidades hospitalares onde se verifica cada vez mais uma ausência de humanismo na prestação de serviços aos utentes derivada de demandas excessivas, que diminuem a qualidade do trabalho, de longas jornadas de trabalho, numerosos turnos, baixa remuneração, convívio constante com o sofrimento, a dor e a morte  de pessoas e a constante exposição ao risco.

O grande problema social relacionado à Síndrome de Burnout em trabalhadores da saúde é o facto de se encontrarem profissionais a trabalhar  de maneira fria e impessoal, sem a dedicação e o envolvimento necessários. Isto pode causar uma diminuição da realização profissional que pode até culminar com a desistência deste profissional. Ou seja, há a possibilidade dos serviços de saúde apresentarem no seio dos seus colaboradores um elevado índice de absenteísmo. Este aspecto pode levar a custos com substituições, necessidade de novas contratações e quebra da rotina assistencial.

Os profissionais da saúde podem estar mais susceptíveis ao Burnout, uma vez que experimentam uma dualidade de papéis e enfrentam uma série de exigências por parte de seus empregadores e chefias, dos pacientes e de si próprios. A Síndrome de Burnout é ainda desconhecida por grande parte dos profissionais da saúde. É necessária uma maior divulgação, pois se os profissionais desconhecem as suas possíveis manifestações e causas, não podem encontrar formas efectivas de tratamento, bem como medidas de prevenção e na maior parte das vezes não dão conta que estão afectados por este mal.

Portanto, um estudo sobre o desgaste crónico físico e psicológico sofrido pelos trabalhadores da saúde de uma unidade hospitalar desperta o interesse de investigadores deste fenómeno por se tratar de um ambiente propício para o desenvolvimento da síndrome e das suas consequências negativas tanto para a assistência aos pacientes, como também para a saúde do profissional envolvido. A continuidade de pesquisas em relação à saúde do trabalhador poderá fornecer dados que elucidem outros factores de risco específicos que desencadeiam o desenvolvimento do desgaste e que poderão dar suporte a uma nova estruturação de estratégias preventivas contra este mal que afecta grande número de profissionais da saúde.

 

Amílcar Inácio Evaristo, Ph.D.

Biólogo e Psicólogo

Especialista em Educação para a prevenção de drogas e promoção de saúde

Professor Associado da Universidade Agostinho Neto-ISCISA (Instituto Superior de Ciências da Saúde) de Luanda

Consultor do Senhor Secretario de Estado da Ciência e Tecnologia

 

 

Fonte imagem: http://saudeexperts.com.br/wp-content/uploads/2015/01/stress-profissional-da-saude_mini.jpg

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Vírus Zika no Sémen e Espermatozoides

 

Um estudo recente revela que, após a infecção, o vírus Zika permanece no esperma até seis (6) meses. Num trabalho publicado na revista The Lancet Infectious Diseases, os investigadores para além de confirmarem a longa permanência do vírus Zika no esperma (mais de 130 dias ou mais de quatro (4) meses), mostram também a sua presença no interior dos espermatozoides. 

Este estudo é o resultado da colaboração entre investigadores de instituições francesas, nomeadamente do Inserm (Institut National de la Santé et de la Recherche Médicale), do CNRS (Centre National de la Recherche Scientifique), do Hospital Universitário de Toulouse III - Paul Sabatier e do Centro Hospitalar Universitário (CHU) de Toulouse.

Neste estudo, os cientistas relatam o caso de um homem de 32 anos de idade retornado de Guiana Francesa (departamento ultramarino de França na América do Sul) com sintomas sugestivos de infecção pelo vírus Zika: febre ligeira, erupções cutâneas, dores musculares e articulares. O vírus Zika foi detectado no plasma e na urina do paciente dois (2) dias após o aparecimento dos sintomas. Foram recolhidas 11 amostras de esperma, 10 de sangue e 5 de urina e analisadas durante 141 dias.

Após a análise, verificou-se o vírus Zika em todas as amostras até o 37º dia. Adicionalmente, detectou-se o vírus apenas no esperma, onde permanece por mais de 130 dias, enquanto o paciente se sente bem. Este resultado foi confirmado noutros dois (2) pacientes, aos quais o vírus permaneceu no esperma de 69 a 115 dias. Actualmente, os factores que influenciam nessa variação de período de um indivíduo para o outro ainda são desconhecidos. Após o diagnóstico feito, os pacientes foram aconselhados a ter ralações sexuais protegidas.

A equipe de investigadores analisou ainda o esperma do paciente e examinou com diferentes técnicas de microscopia os espermatozoides. "Nós detectámos a presença de vírus Zika em cerca de 3.5% do interior do espermatozoide do paciente", explicou Guillaume Martin-Blondel, investigador do Inserm no Centro de Fisiopatologia de Toulouse Purpan (Inserm / CNRS / Université Toulouse III - Paul Sabatier) e médico de Doenças Infecciosas e Tropicais ao serviço  do Hospital Universitário de Toulouse.

Os investigadores explicam que no caso de outros vírus sexualmente transmissíveis, como o HIV, o vírus permanece "colado" à superfície do espermatozoide. Pelo que no contexto de uma fertilização in vitro, é assim possível "lavar" os espermatozoides de pacientes infectados pelo HIV, enquanto que este procedimento parece, portanto, excluído para os espermatozoides de pacientes positivos para vírus Zika. Resta determinar o carácter "activo" do vírus Zika presente nos espermatozoides, bem como a capacidade de os espermatozoides transmitirem a infecção (o vírus está também presente fora do espermatozoide, no sémen).

Em conclusão, a análise deste caso tem implicações significativas na prevenção da transmissão sexual deste vírus, cujos modos permanecem até hoje desconhecidos. Estas observações também levantam muitas questões relativas à necessidade de incluir investigações do vírus Zika em doações de espermatozoides nos centros de fertilidade.

 

Autores

Jean Michel Mansuya, Elsa Suberbielleb, Sabine Chapuy-Regauda,b, Catherine Mengellea, Louis Bujand, Bruno Marchouc, Pierre Delobelb,c, Daniel Gonzalez-Duniab, Cécile E Malnoub, Jacques Izopeta,b, Guillaume Martin-Blondelb, c

a Laboratoire de virologie, Institut Fédératif de Biologie, CHU Toulouse, Toulouse, 31059, France

b Centre de Physiopathologie Toulouse-Purpan, Université de Toulouse, CNRS, INSERM, UPS, Toulouse, France

c Service des Maladies Infectieuses et Tropicales, CHU Toulouse, France

d Groupe de Recherche en Fertilité Humaine (Human Fertility Research Group), CECOS, Centre Hospitalier Universitaire Paule de Viguier, Université de Toulouse, UPS, Toulouse, France 

 

 

Texto de divulgação original publicado pelo CNRS (em françês):

http://www2.cnrs.fr/sites/communique/fichier/2016_09_29_cp_zikaspermato.pdf (em francês.)

 

Artigo original (em inglês): 

http://www.sciencedirect.com/science/article/pii/S147330991630336X

http://dx.doi.org/10.1016/S1473-3099(16)30336-X

 

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Malária: Consumo de Açúcares Vegetais pelos Mosquitos Influencia a sua Transmissão

 

Estudo realizado por investigadores do IRD (Institut de Recherche pour le Developpement, França), do CNRS (Centre National de la Recherche Scientifique, França) e do IRSS (Institut de Recherche en Sciences de la Santé, Burkina Faso) revela que fontes naturais de açúcar contidos nas plantas e frutos consumidos pelos mosquitos influenciam na transmissão da malária.  Estes resultados, que abrem novas perspectivas na luta contra esta doença, foram publicados a 4 de Agosto na revista PLOS Pathogens.

A malária, doença parasitária mais disseminada pelo mundo, é responsável por mais de 430.000 mortes por ano, sendo 90% delas no continente africano. Causada por um parasita, o Plasmodium falciparum, a doença é transmitida aos seres humanos através dos mosquitos fêmeas (chamados vectores) do género Anopheles que se alimentam de sangue (humano e animal) e de açúcares vegetais de fontes naturais, como o néctar de plantas.

Os recentes estudos mostram que o consumo de açúcar pelos mosquitos tem impacto no seu tempo de vida. No entanto, a forma como a diversidade de plantas influencia a capacidade de os mosquitos transmitirem a malária (agindo sobre as relações portador/ patogénico [agente que causa a doença]), manteve-se até então desconhecida.

 

A alimentação dos mosquitos vista à lupa

Neste estudo, os investigadores analisaram a alimentação do mosquito Anopheles coluzzii, um dos principais transmissores do Plasmodium falciparum na África subsariana. Estudaram o impacto das fontes naturais de açúcar, contidos em diferentes plantas, sobre a relação entre o mosquito e o parasita responsável pela transmissão da malária.

Em laboratório, os investigadores alimentaram os mosquitos com açúcares naturais de néctares de plantas ornamentais (Barleria lupilina e Thevetia neriifolia) e de frutas (manga e uva selvagem) colhidas em jardins e em parques da cidade de Bobo Dioulasso (Burkina Faso). No entanto, um grupo de mosquitos recebeu uma solução aquosa com 5% de glicose. Passadas 24 horas os mosquitos foram alimentados com sangue infectado pelo Plasmodium falciparum. Os investigadores continuaram a fornecer fontes de açúcar (flor, frutas ou solução de glicose) aos mosquitos durante 14 dias (tempo de desenvolvimento do parasita no mosquito).

 

Acção dos açúcares naturais sobre as relações entre mosquito e o parasita

As observações microscópicas combinadas com modelos epidemiológicos revelaram que o fornecimento de açúcares naturais influenciou significativamente no desenvolvimento do parasita, na fertilidade e longevidade do mosquito. Assim, os mosquitos alimentados com néctar T. neriifolia reduziram a sua capacidade de transmitir a malária em 30 %, enquanto que os alimentados com néctar L. microcarpa e com néctar B. lupilina aumentaram a capacidade de transmissão em 30 % e 40 %, respectivamente. 

 

Novas estratégias na luta contra a malária

O estudo mostra, pela primeira vez, que as fontes naturais de açúcares podem modular as relações portadores-patogênicos. Os mecanismos de acção ainda são desconhecidos, mas os investigadores sugerem que os compostos metabólitos secundários tóxicos para o parasita poderiam estar envolvidos. 

As investigações prosseguem sobre uma ampla gama de plantas, a fim de identificar espécies de plantas que podem impedir a transmissão do parasita. Os investigadores também perspectivam estudos adicionais relativos às preferências comportamentais dos mosquitos (saudáveis e infectados) para plantas com diferentes propriedades antiparasitárias. Estes resultados sugerem novas estratégias na luta contra a malária, como a plantação de espécies vegetais que afectem negativamente a capacidade transmissora dos mosquitos.

 

Artigo original publicado pelo CNRS (em françês):

http://www2.cnrs.fr/sites/communique/fichier/cp_nectar_fleurs_paludisme.pdf

 

Contactos

  • Investigadores 

Thierry Lefèvre 

Chercheur CNRS em accueil à l'IRD (BurkinaFaso)

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Tel: +226 72 82 83 55

 

Domonbabele Hien,

Doctorant à l'IRD et à l'IRSS (Burkina Faso)

Este endereço de email está protegido contra piratas. Necessita ativar o JavaScript para o visualizar.

Tel: +226 71 90 38 70 

 

  • Service presse IRD

Cristelle Duos

Este endereço de email está protegido contra piratas. Necessita ativar o JavaScript para o visualizar.

T : 04 91 99 94 87

 

Para mais detalhes

D. Hien, K. R. Dabiré, B. Roche, A. Diabaté, S. R. Yerbanga, A. Cohuet, B. K. Yameogo, L-C. Gouagna, R. J. Hopkins, G. A. Ouadraogo, F. Simard, J-B Ouadraogo, R. Ignell, T. Lefèvre. Plant-mediated effects on mosquito capacity to transmit human malaria, PLOS Pathogens, 2016.

http://journals.plos.org/plospathogens/

DOI :10.1371/journal.ppat.1005773.s011

 

Parceiros implicados no estudo

  • Maladies infectieuses et vecteurs: écologie, génétique, évolution et contrôle (MIVEGEC, IRD/CNRS/Université de Montpellier)
  • Institut de recherche em sciences de la santé (IRSS, Bobo-Dioulasso, Burkina Faso)
  • Unité de modélisation mathématique et informatique de systèmes complexes (UMMISCO, IRD / Université Cadi Ayyad de Marrakech/ Université Cheikh Anta Diop de Dakar/ Université Gaston Berger de Saint-Louis (Sénégal)/ Université Pierre et Marie Curie - Paris 6/ Université de Yaoundé I/ Hanoi University of Science and Technology)
  • Université Polytechnique de Bobo Dioulasso (Burkina Faso)
  • Université de Greenwich (Angleterre)
  • Université desSciencesAgricoles d’Alnarp (Suède)

 

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Publicações Científicas

 

Em construção

 

Artigos Resultantes de Investigação Científica Publicados em Revistas Científicas Indexadas

Autor Título Revista ISSN Vol Ano Fact.Imp. Cit. DOI/Link
 Nome Apelido Título do artigo  Nome da revista   0000-0000  0 0000  0.00  00.000/XXX.0000.0000000 

 

Artigos Resultantes de Investigação Científica Publicados em Revistas Científicas Não Indexadas

Autor Título Revista ISSN Vol Ano Fact.Imp. Cit. DOI/Link
 Nome Apelido  Título do artigo  Nome da revista  0000-0000 0 0000  0.00   00.000/XXX.0000.0000000

 

Artigos Resultantes de Investigação Científica Publicados em Actas de Conferências

Autor Título Conferência ISSN Local Ano Cit. DOI/Link
 Nome e Apelido  Título do artigo  Designação da conferência  0000-0000  Local da conferência  0000  0  00.000/XXX.0000.0000000

 

 

Revistas Científicas

Título Edição Data

Ciência e Tecnologia

Ministério da Ciência e Tecnologia Dez 2010
Ciência e Tecnologia Ministério da Ciência e Tecnologia Out 2011

 

 

Impacto da produção emergente de carvão nas florestas de Miombo do planalto de Chitembo, Centro-Sul, Angola

O carvão é uma das principais fontes de energia para uso doméstico na maioria dos países africanos devido aos elevados custos de eletricidade e ao limitado acesso a fontes  alternativas de energia.

A produção global de carvão foi estimada em 47 milhões de toneladas em 2009, com um aumento de cerca de 9% desde 2004. Esta tendência foi fortemente influenciada pelo continente africano com cerca de 63% da produção global. Nos próximos 20 anos, espera-se um aumento significativo no uso de carvão, particularmente nos países em desenvolvimento. Em Angola, cerca de 40% da população vive em áreas rurais onde o comércio de carvão é muitas vezes a fonte mais importante de rendimento.

O presente estudo decorreu no município de Chitembo, região centro-sul de Angola. A recolha de dados foi feita nos locais de produção e usou-se como instrumento de recolha a entrevista semi-estruturada, para obtenção de dados relativos às estratégias de subsistência, receitas derivadas da produção de carvão, uso dos recursos florestais e espécies mais utilizadas para a produção de carvão. Os dados sobre a vegetação foram colhidos em dez parcelas de amostragem com tamanho de 1000 m2 (20 m x 50 m). Todas as árvores com circunferência ≥ 15 cm foram medidas a altura do peito, as espécies foram identificadas pelo seu nome local e pelo nome científico.

Os objectivos dos estudo foram :

  • Quantificar a produção de carvão na área de estudo;
  • Analisar a importância soci-económica da actividade para subsistência local;
  • Identificar as espécies mais afectadas pela produção de carvão;
  • Analisar a estrutura da vegetação destas espécies. 

No total, 30 carvoeiros foram entrevistados. Em média 110 ± 14 árvores são necessárias para produzir 54 ± 9 sacos de carvão. Com base no número total de sacos produzidos por forno (1529 sacos) multiplicado pelo número esperado de fornos por ano (125) estimou-se uma produção anual de 191.125 sacos, correspondente a 10.703 toneladas de carvão produzidos pelos 30 carvoeiros entrevistados, considerando que o peso médio de cada saco é de 56 kg. Para muitos produtores, o carvão é a principal fonte de subsistência depois da agricultura e tem como finalidade os principais centros urbanos do país.

As espécies arbóreas Julbernardia paniculata, Brachystegia spiciformis, Cryptosepalum exfoliatum subsp. pseudotaxus e Burkea africana foram as mais citadas e também as mais frequentes nas parcelas de vegetação. A estrutura da vegetação mostrou uma baixa regeneração. Apenas alguns indivíduos com diâmetro inferior foram encontrados, com excepção da J. paniculata. Estas espécies mostraram também poucos indivíduos com grande diâmetro, o que indica que uma especial atenção deverá ser prestada a estas espécies.

Trabalho apresentado, em forma de poster, na 4a Conferência Nacional sobre Ciência e Tecnologia, Luanda, 9 - 11 de Setembro de 2015.

Referências

  • AHRENDS, A., BURGESS, N., MILLEDGE, S., BULLING, M., FISHER, B., SMART, J., CLARKE, G., MHORO, B., LEWIS, S. (2010) Predictable waves of sequestral forest and biodiversity losses spreading from an African city. Proceedings of the National Academy of Science of the United States of America, 107 (33)
  • CHIDUMAYO, E. N. (1991) Woody biomas structure and utilization for charcoal production in Zambian miombo woodland. Bioresource Technology 37: 43 - 52
  • FAO (2011a) Highlights on wood charcoal: 2004 – 2009 FAO Forestry Department. FAOSTAT – ForesSTAT.
  • INE (2014) Resultados Preliminares do Recenseamento Geral da População e Habitação de Angola, Angola
  • LUONGA, E. J.; WITKOWSKI, E. T.; BALKWILL, K. (2002) Economics of charcoal production in miombo woodlands of eastern Tanzania: some hidden costs associated with commercialization of the resources. Ecological Economics 35: 243-257.
  • MAY-TOBIN, C. (2011) Charpter 8: Wood for Fuel. The root of the problem, what's driving tropical deforestation today? Union of Concerned Scientists. USA.

 

Francisco Gonçalves
Licenciado em Biologia
Investigador na Área de Ecologia Vegetal
Departamento de Ciências da Natureza
Herbário do Lubango, ISCED Huíla
Lubango - Angola,
T. : +244  924 061 322
Email : Este endereço de email está protegido contra piratas. Necessita ativar o JavaScript para o visualizar.

 

 

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Museu Virtual de Biodiversidade de Angola – Atlas de Mamíferos rumo à produção e exportação de dados de diversidade biológica de Angola

A biodiversidade de Angola é ainda pouco conhecida. Cada cidadão pode colaborar para o crescimento deste conhecimento por meio da plataforma de museu virtual desenvolvida: www.museuvirtual.co.ao.

Todos os dias, cidadãos e turistas registam fotograficamente a biodiversidade de todo o Mundo. Esta valiosíssima informação, encontrando-se dispersa, não é útil nem para a ciência nem para as comunidades em geral. Com o objectivo de proporcionar uma plataforma que permita a estes cidadãos partilhar os registos fotográficos, surgiu o Projecto Atlas de Mamíferos de Angola (primeiro subprojecto do Museu Virtual de Biodiversidade em Angola), que resulta de uma cooperação entre o Grupo Herbário do ISCED-Huíla e a ADU (Animal Demography Unit) na Universidade de Cape Town - África do Sul. Este projecto foi financiado pelo Ministério de Ciência e Tecnologia no âmbito do programa de cooperação bilateral Angola-África do Sul.

Este projecto lançou uma plataforma WEB para a recolha de informação sobre biodiversidade de mamíferos em Angola: www.museuvirtual.co.ao. O Museu Virtual de Biodiversidade de Angola está também preparado para receber registos históricos ou bibliográficos, inicialmente de mamíferos e posteriormente de outros grupos animais e vegetais.

O projecto pretende posicionar-se ao nível de outras iniciativas como o Virtual Museum da África do Sul ou o Map of Living da Australia e, posteriormente, integrar projectos globais de biodiversidade como o Map of Life dos Estados Unidos da América ou Global Biodiversity Information Facility (GBIF). Todos estes projectos de sucesso têm em comum uma lacuna de informação sobre o território angolano. Por este motivo, o Museu Virtual de Biodiversidade em Angola, tornar-se-á essencial para a comunidade científica, para a comunidade angolana e servirá também de auxílio às entidades competentes para a criação de políticas de preservação e conservação.


Trabalho apresentado, em forma de poster, na 4a Conferência Nacional sobre Ciência e Tecnologia Luanda, 9 - 11 de Setembro de 2015.

 

David Elizalde Castells
Mestre em Geomática
Investigador na área de Bioinformática
ISCED-Huíla, Angola
Email:   Este endereço de email está protegido contra piratas. Necessita ativar o JavaScript para o visualizar.  
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