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Comércio Ilegal de Medicamentos: Desvendando Mitos e Conhecendo Realidades

 

O fenómeno do comércio ilegal e a adulteração de medicamentos têm crescido nos últimos anos, porque os seus métodos são cada vez mais sofisticados, e pelo aumento do comércio internacional de produtos farmacêuticos. Além das vendas através da Internet que têm facilitado a entrada de produtos falsificados na cadeia de fornecimento do medicamento.

A problemática dos medicamentos falsificados afecta principalmente os países em desenvolvimento, condicionada por factores sociais, económicos e políticos que influenciam a baixa disponibilidade de medicamentos seguros, eficazes e de qualidade. Embora seja difícil obter números precisos relativos à ilegalidade desta prática, os dados estatísticos fornecidos pela Food and Drug Administration (FDA) dos Estados Unidos e pela Organização Mundial da Saúde (OMS) são fortes. Nos países desenvolvidos, cerca de 10% dos medicamentos que circulam são adulterados, enquanto esse número chega a 30% nos países em desenvolvimento. Em alguns países, esse percentual chegaria até 50%. Neste contexto, em 2006, a OMS criou uma aliança global de organizações interessadas no assunto, a que chamou IMPACT (International Medical Products Anti-Counterfeiting Taskforce).

As organizações nacionais e internacionais trabalham coordenadamente para conseguir diminuir o consumo ilegal de medicamentos, no entanto, o fenómeno continua a ser foco de preocupação social, assim como no âmbito sanitário. Resolver a problemática passa, em primeiro lugar, por conhecer as origens do fenómeno, e, em consequência, por agir em termos de educação no uso racional do medicamento, e esta é sem dúvidas uma das principais funções dos farmacêuticos na sociedade.

 

O que é um medicamento?

Definimos um medicamento como um produto que ajuda a restaurar a saúde, portanto, ele colabora na criação do bem-estar individual e colectivo.

No entanto, o medicamento é um outro produto numa economia de mercado livre e, por conseguinte, sujeito às mesmas leis. Portanto, um medicamento é também reconhecido como um bem de consumo, e isso aporta uma série de características na presença de um fornecimento farmacêutico:

  • Um grande número de medicamentos com a mesma composição é comercializado por diferentes laboratórios sob diferentes nomes comerciais, tratando-se na verdade dos mesmos medicamentos.
  • Especialidades farmacêuticas compostas por combinações de fármacos que não têm benefícios terapêuticos.
  • Fármacos cuja eficácia não tem sido absolutamente provada e, em alguns casos, as associações de produtos que se podem tornar prejudiciais para a saúde. 
  • Grupos de fármacos com pequenas variações na composição e/ou na dosagem têm sido comercializados com o duvidoso objectivo de oferecer uma nova escolha de especialidade farmacêutica.

 

Características do sistema de saúde que favorecem o consumo de medicamentos

Medicamento: necessidade ou convite? Será que o medicamento por si, além de ser um bem de consumo, se pode tornar num artigo com grandes vendas, e até um objecto que pode ser usado para o lucro?

O medicamento é parte do nosso sistema, é um produto que nós usamos para resolver problemas de saúde. No entanto, o sistema de saúde tem características que favorecem o consumo de medicamentos.

  • A base da maioria dos sistemas sanitários está na cura da doença, mais do que em procurar a causa da perda de saúde. Uma boa política de prevenção de doença levaria a uma diminuição dos processos patológicos agudos e crónicos e, em resumo, a um menor consumo de medicamentos.
  • Em segundo lugar, uma estrutura de assistência médica primária que leva a substituir uma visita médica pela prescrição exagerada de medicamentos como um meio para satisfazer a demanda de atenção médica.
  • Outro aspecto importante é ter em conta a existência de uma promoção comercial que a indústria farmacêutica realiza aos diferentes níveis (médico, farmacêutico, público em geral) e conjuntamente com isso, a falta de fontes de informação objectivas sobre os medicamentos, e o baixo nível de educação sanitária geral.

Tudo isso leva a uma falta de rigor na prescrição de medicamentos e falta de rigor na dispensa dos mesmos, e a uma pressão na demanda por parte dos usuários, dos clientes e dos utentes que, frequentemente, acreditam que a solução para todos os problemas de saúde consiste em tomar medicamentos. 

Como resultado dos três pontos acima mencionados, o medicamento adquire muito frequentemente as características típicas de um bem de consumo na mentalidade da população.

A qualidade e a eficácia do medicamento ligam-se ao preço (obviamente eles não estão relacionados), e há uma convicção generalizada de que o tratamento prioritário para qualquer doença é tomar medicamentos. De facto, muitas doenças são melhor resolvidas com a higiene, com medidas dietéticas, e não com uso de medicamentos.

Chegados a este ponto, cabe destacar o papel dos farmacêuticos como assessores do processo de uso racional dos medicamentos pelas populações, ajudando-as a entender os benefícios, mas também os perigos do uso irracional dos mesmos. Numerosas acções educativas poderiam ser realizadas ao nível das comunidades, como por exemplo, mostrar à população as falsificações mais frequentes das quais poderiam ser vítimas, nomeadamente: medicamentos com ausência total do ingrediente activo indicado na embalagem, dosagem incorrecta do ingrediente activo, substituição por um ingrediente activo diferente, presença de impurezas ou de substâncias tóxicas no medicamento, tais como revestimentos industriais, talco, giz ou ceras, e inclusão de embalagens ou documentos falsos.

O uso de medicamentos falsificados ou adulterados gera outros problemas de saúde, tais como acelerar o surgimento de micróbios resistentes, perda de confiança dos doentes nos medicamentos, entre outros efeitos com impacto no país.

Precisamos, obviamente, garantir o fornecimento de medicamentos em resposta às necessidades de saúde da população, no entanto, esses esforços para garantir mais e melhores medicamentos devem ser acompanhados pela informação oportuna e aconselhamento do único profissional que, pela sua formação é o especialista em medicamentos, o farmacêutico. Porque o medicamento, nunca melhor dito, é uma faca de dois gumes. 

Perante qualquer dúvida ou necessidade relacionada com os medicamentos, não hesite, consulte sempre o seu farmacêutico.

  

 

Dra. Alina M. Sánchez, BScPharm, MScEduc, PhD

Docente, gestora e pesquisadora em Farmácia

Farmacêutica de Oficina de Farmácia

Coordenadora do Projecto de Desenvolvimento Profissional Continuo para Farmacêuticos Africanos de Expressão Portuguesa (CPD/FAEP)

Universidad de Castilla-La Mancha

Espanha

https://es.linkedin.com/in/alinamsanchez

 

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Ciências da Computação, STEM e Integração

Um artigo publicado na plataforma digital de notícias, Quartz, intitulado “You probably should have majored in computer science”, incentiva os jovens a iniciar estudos em Ciência da Computação (ou Informática) em particular, e em disciplinas como ciência, tecnologia, engenharia e matemática (STEM, em Inglês) em geral, dado o enorme diferencial entre os empregos por preencher no mercado e a actual disponibilidade de licenciados na área. No ano de 2015 houve um total de 59581 licenciados contra 527169 postos de trabalho. 

A evidência é clara: à medida que vivemos cada vez mais cercados por dispositivos programáveis, que definem o nosso ecossistema mais claramente e como realizamos mais e mais tarefas, a procura por profissionais capazes de lidar com essa nova realidade cresce incessantemente.

Será que isso significa que devemos ter cada vez mais jovens a optar por estudar Ciência da Computação? De facto, trabalhos que exigem habilidades dentro das chamadas disciplinas STEM mostram um crescimento de mais do que o dobro em relação a outros, e estão entre os mais bem pagos, mas a conclusão não é tão simples. Primeiro, porque a estrutura de muitos desses estudos está longe de ser perfeita, ela evoluiu muito pouco ao longo das últimas décadas em termos de conteúdo e de metodologia, e como tal está muito longe do que o mercado parece exigir. E em segundo lugar, porque quando tudo é dito e feito, a sociedade precisa de profissionais de muitos tipos e com habilidades variadas.

Faz sentido um futuro em que todos se dediquem à computação? Obviamente não. Faz todo o sentido que a demanda por esses empregos cresça, dado que a tecnologia evolui e ocupa um espaço maior nas nossas vidas, mas não faria sentido que todos os postos de trabalho fossem preenchidos por formados em Ciência da Computação. O que acontece, porém, é que a as Ciências da Computação estão a incorporar-se de forma natural em mais e mais disciplinas profissionais: o trabalho do biólogo, do médico, do arquitecto ou do agricultor do futuro tem, sem dúvida, uma componente tecnológica cada vez mais importante e essa componente exige cada vez mais o desenvolvimento de competências necessárias não só enquanto simples usuários, mas também para a sua conceptualização (na construção de conhecimento).

A solução está, sem dúvida, em incorporar a STEM na educação a todos os níveis. A grande procura por profissionais de STEM não se reflecte só na necessidade de trabalhadores dedicados estritamente às STEM, mas também na falta de diplomados de muitas outras áreas com conhecimentos operacionais suficientes para desenvolver adequadamente os seus trabalhos. 

A formação de um fazendeiro tem estado tradicionalmente muito distante das disciplinas de STEM, e hoje em dia, para uma agricultura eficiente, é preciso lidar com as tecnologias que vão desde tractores autónomos a drones, através da sensorização, planificação de produção ou de criação de redes de produtores como a Farmers Business Network (FBN), uma iniciativa da Google Ventures. E se isso acontece numa actividade supostamente tão tradicional como a agricultura, o que dizer de outras áreas? Na medicina, os médicos que realizarem procedimentos cirúrgicos através de um sistema de assistência robótica, terão certamente mais vantagens sobre os que fizerem de maneira tradicional, e embora a disciplina ainda esteja em fase de tecnologias proprietárias e não modificáveis, em breve, chegar-se-á à fase em que o próprio médico poderá definir e parametrizar as suas necessidades através da interacção com a máquina. 

Da mesma forma, indo para uma área pouco suspeita de interacção com a Ciência da Computação, um licenciado em Direito deverá ser capaz de entender como interagir com sistemas de inteligência artificial como o Ross, capaz de marcar hoje em dia uma grande diferença relativamente ao tempo de preparação de um julgamento. A incorporação da tecnologia acontece num elevado número de áreas, no entanto, a procura por profissionais deve ser satisfeita não só pela criação de mais licenciados em STEM, mas também pela integração de STEM noutras áreas, sobretudo integrando a sua aprendizagem nos primeiros níveis de ensino.

No momento em que a educação for separada da realidade do mundo em que vivemos, a sociedade passará a ter um grave problema de adaptação. Não se trata de aprender "novas tecnologias" (quanto mais tempo continuaremos a usar esse termo, já que actualmente todos usamos as "novas" tecnologias?), mas, integrá-las normalmente no processo educativo em todos os níveis. Nenhum currículo de educação deve ser considerado completo ou adequado sem a necessária incorporação das Ciências da Computação, sem entender como a tecnologia pode afectar o desenvolvimento desta actividade no futuro e sem preparar profissionais para isso. Precisamos de mais licenciados em STEM, mas também mais matérias de STEM em todos os graus, em todos os níveis. Mais STEM, sim, sem dúvida. Mas também muito mais integração.

 

 

Artigo Original:

Por Enrique Dans

Senior Advisor for Innovation and Digital Transformation at IE University 

Linkedin, 12 de Março 2017 

https://www.linkedin.com/pulse/computer-science-stem-integration-enrique-dans (em inglês)

https://www.enriquedans.com/2017/03/computacion-stem-e-integracion.html (em espanhol)

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