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Degradação Química dos Solos da Funda

 

A comuna da Funda pertence ao município de Cacuaco, província de Luanda. Esta comuna é essencialmente habitada por agricultores que cultivam diversos produtos agrícolas, sobretudo hortaliças, raízes e tubérculos e frutos. A maior parte destes produtos são comercializados na sede do município e na cidade de Luanda. Em virtude dos condicionalismos climáticos, resultantes da escassez de chuvas e elevados índices de variabilidade na sua distribuição a prática da irrigação é fundamental para garantir a produção agrícola em regiões tropicais de clima quente e seco, como é o caso da Funda Prédio. 

Na agricultura irrigada, a qualidade da água deve ser analisada antes do início do cultivo, pois os sais nela dissolvidos, mesmo estando em baixas concentrações, podem ser incorporados ao solo, tornando-o salino em poucos anos e consequentemente provocarem a degradação química dos solos (Medeiros e Gheyi, 1994). 

Outro factor que também pode contribuir na degradação química dos solos da Funda é a aplicação excessiva de fertilizantes. O Solo Barro negro, predominante na Funda Prédio, apresenta alta fertilidade e, não requer de aplicações adicionais de adubos, salvo se a análise química do solo justifique a sua aplicação. A adição desmedida de fertilizantes, para além de elevar os custos da produção e afectar o meio ambiente, pode acidificar o solo. Por outro lado, o uso de fertilizantes com elevado índice salino tais como a ureia e os nitratos, muito utilizados pelos agricultores da região da Funda, promovem um incremento da pressão osmótica na solução do solo, prejudicando o desenvolvimento das culturas. O presente trabalho foi realizado com o objectivo de avaliar a degradação química do solo Barro negro da zona da Funda Prédio.  

As investigações decorreram entre os meses de Setembro a Dezembro de 2015, na comuna da Funda, muito concretamente na Funda Prédio sob as coordenadas 0,8º 49'01.0'' S, 13º 30'25.9'' E. O clima foi classificado por Köppen, como sendo do tipo BSh (clima seco, de estepe, muito quente). As precipitações são escassas, com uma média anual que varia entre 350 a 400 mm. A temperatura média anual está compreendida entre 24ºC e 26ºC. 

As amostras de água foram recolhidas na Vala da Espanha, utilizando duas garrafas de plástico de 1.5 litros. Nas amostras de água determinou-se a relação de adsorção do sódio (RAS, mg/l) e a condutividade eléctrica (CEa, dS/m). Os valores médios destes parâmetros foram interpretados mediante a metodologia proposta por Richards (1954) (CEa, C1 a C4; RAS, S1 a S4).

O solo das parcelas foi classificado como Barro negro (MPAM e CEPT, 1968). As amostras para a análise do solo foram recolhidas na camada de 0 a 20 cm, em duas parcelas homogéneas designadas A e B, seguindo o percurso em zigue-zague. Nas amostras determinou-se os seguintes nutrientes minerais: cálcio (Ca), magnésio (Mg), potássio (K) e sódio (Na) para calcular a soma de bases (SB = Ca + Mg + K + Na), além do fósforo (P), alumínio (Al) e acidez activa (pHCaCl2). Os valores médios destas variáveis foram interpretados utilizando cinco classes de fertilidade designadas de “Muito baixa”, “Baixa”, “Média”, “Alta” e “Muito alta”.   

De acordo com os dados da Figura 1, verifica-se que a água de rega da vala da Espanha corresponde a classe C2S1 (C2 - água de média salinidade. Pode ser usada sempre e quando houver uma lixiviação moderada de sais; S1 - Água de baixa sodificação. Pode ser usada para irrigação na maioria dos solos). O uso desta água representa perigo de salinização no solo Barro negro com baixa drenagem interna e, consequentemente provocar a degradação química do solo.

 

Os dados da Tabela 1, mostram que os valores médios da maior parte dos atributos estudados variam de “Alta” a “Muito alta”. Neste caso, não são necessárias aplicações adicionais de fertilizantes, porque o solo dispõe de nutrientes suficientes, para se atingir altos rendimentos produtivos. É de ressaltar que a elevada concentração dos teores de sódio em ambas parcelas pode provocar degradação nas propriedades do solo.       

Assim, chegaram-se às seguintes conclusões: 

  1. A má qualidade da água de irrigação reflecte-se na salinidade do solo Barro negro, devido a sua drenagem deficitário; 
  2. A aplicação excessiva de fertilizantes no solo Barro, com uma disponibilidade de nutriente que varia de “Alta” a “Muito alta”, pode contribuir na degradação do solo da região.

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS 

Anónimo, (1997). Manual de fertilidade do solo e fertilização das culturas. Instituto Nacional de Investigação e Desenvolvimento Agrário. República de Cabo Verde. 96 p.

Anónimo, (2005). Manual de fertilização das culturas. Laboratório Química Agrícola Ribeiro da Silva. Lisboa, 282 p.

Medeiros, J.F. e Gheyi, H.R.A. (1994). A qualidade da água de irrigação. Campina Grande: UFPB. 60 p.

MPAM e CEPT. (1968). Carta Generalizada dos Solos de Angola (3ª Aproximação). Memórias (2ª Série), 56. Junta de Investigação do Ultramar, Lisboa.

Richards, L.A. (1954). Diagnosis and improvement of saline and alkali soils. Washington: United States Salinity Laboratory. (USDA: Agriculture Handbook, 60). 

 

Autores:

Domingos Bongue, PhD. Investigador Auxiliar do Centro Nacional de Investigação Científica do Ministério do Ensino Superior, Ciência, Tecnologia e Inovação, Este endereço de email está protegido contra piratas. Necessita ativar o JavaScript para o visualizar. , +244 926 289 870.

Márcia da Graça de Sousa Gaspar, Lic. Laboratório Central, Direcção Nacional de Agricultura e Pecuária do Ministério da Agricultura e Florestas, Este endereço de email está protegido contra piratas. Necessita ativar o JavaScript para o visualizar. , +244 929 342 827.

Albertina Natália Chitombi, Lic. Universidade Independente de Angola, Este endereço de email está protegido contra piratas. Necessita ativar o JavaScript para o visualizar. , +244  939 742 542.

Pedro Guilherme João, PhD. Investigador Auxiliar do Centro Nacional de Investigação Científica do Ministério do Ensino Superior, Ciência, Tecnologia e Inovação, Este endereço de email está protegido contra piratas. Necessita ativar o JavaScript para o visualizar. , +244 923 524 803.  

João Carlos Ferreira, PhD. Investigador Auxiliar do Centro Nacional de Investigação Científica do Ministério do Ensino Superior, Ciência, Tecnologia e Inovação, Este endereço de email está protegido contra piratas. Necessita ativar o JavaScript para o visualizar. , +244 924224839.

 

* Este trabalho foi apresentado no 14º Congresso da Água realizado em Évora, Portugal de 7 a 9 de Março de 2018. 

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Dengue: Mecanismos que Permitem não Desenvolver os Sintomas após uma infecção pelo vírus

Investigadores do Institut Pasteur de Paris e do Institut Pasteur do Camboja, em colaboração com equipas do CNRS (Centre National de la Recherche Scientifique) e do INRIA (Institut National de Recherche en Informatique et en Automatique), demonstraram que a infecção pelo vírus dengue em crianças assintomáticas está associada a uma activação do sistema imunitário, utilizando mecanismos de controlo que permitem eliminar a infecção viral sem activação excessiva da imunidade. Este estudo, publicado na revista científica Science Translational Medicine, a 30 de Agosto de 2017, representa uma etapa importante para uma melhor compreensão do papel que a imunidade desempenha na infecção pelo vírus da dengue. O estudo permitirá desenvolver novas estratégias de luta contra esta doença.

A dengue, também conhecida como "gripe tropical", continua a expandir-se dramaticamente em todo o mundo, estando actualmente classificada como uma doença emergente. A OMS (Organização Mundial da Saúde) estima que há entre 50 e 100 milhões de casos por ano, sendo que 500.000 pessoas adoecem com gravidade, exigindo hospitalização, e desse total, cerca de 2,5% morrem. Por outro lado, cerca de 50% da população mundial vive em áreas de risco de infecção. Inicialmente presente em áreas tropicais e subtropicais do mundo, a dengue já está a afectar a Europa.

A dengue é uma doença viral transmitida aos seres humanos através da picada dos mosquitos do género Aedes infectados com o vírus. As estirpes do vírus da dengue dividem-se em quatro serotipos imunológicos: DEN-1, DEN-2, DEN-3 e DEN-4. A imunidade adquirida em resposta a uma infecção com um dos sorotipos confere uma imunidade protetora contra o sorotipo infectante, mas não contra outros serotipos. Uma pessoa está susceptível de ser infectado por cada um dos quatro serotipos da dengue. Além disso, as infecções subsequentes por outros serotipos aumentam o risco de desenvolver dengue grave, conhecida como febre hemorrágica.

Actualmente, não há tratamento específico contra a infecção pelo vírus da dengue. A única vacina comercializada é parcialmente eficaz contra infecções aos quatro sorotipos do vírus. Todavia, a vacina não é administrável em crianças menores de 9 anos e a vacinação em 3 doses não é adequada para viajantes.

Apesar de 50 anos de investigação, os mecanismos fisiopatológicos que levam a uma evolução clínica grave da dengue, em alguns pacientes, ainda não foram elucidados com precisão. Esses mecanismos são complexos, envolvendo factores imunológicos, genéticos e virais. O elevado risco de desenvolver sintomas graves durante a infecção secundária foi associado à presença de anticorpos não neutralizantes que aumentam a infecção, em vez de a bloquear.

Algumas pessoas infectadas são assintomáticas (não apresentam sintomas) e interessa estudá-las, mas é muito difícil identificá-las para as incluir em estudos exploratórios.

Com o objectivo de identificar os mecanismos internos de controlo da infecção do vírus da dengue em pacientes assintomáticos, investigadores do Institut Pasteur de Paris, do Institut Pasteur do Camboja, do CNRS e do INRIA compararam a composição do plasma e do perfil de expressão dos genes em crianças cambojanas assintomáticas infectadas pelo vírus da dengue com a de pacientes com sintomas. Surpreendentemente, o seu trabalho revelou que os pacientes assintomáticos têm uma resposta imune controlada, em que a apresentação do antígeno registou um aumento, mas associado a uma activação medida do linfócito T e a uma produção mais moderada de anticorpos, em comparação com os pacientes com sintomas.

Anavaj Sakuntabhai, Director da Unidade de Genética Funcional de Doenças Infecciosas do Instituto Pasteur de Paris, co-supervisor destes trabalhos, sublinha que "os trabalhos de investigação, geralmente, concentram-se no estudo de pacientes doentes. Ao analisar pacientes assintomáticos infectados, este estudo pode compreender os mecanismos que permitem não desenvolver os sintomas após uma infecção. Isto convida a revisitar a composição das vacinas para melhor prevenir as infecções ".

Os resultados deste estudo original abrem o caminho para novas pistas de investigação, a fim de desenvolver uma vacina contra o vírus da dengue que possa conferir uma imunidade mais completa, prevenindo o risco de transmissão desta doença, que é uma ameaça real em todo o mundo.

 

Autores:

Etienne Simon-Lorière (1,2), Veasna Duong (3), Ahmed Tawfik (1,2), Sivlin Ung (4), Sowath Ly (5), Isabelle Casadémont (1,2), Matthieu Prot (1,2), Noémie Courtejoie (1,2), Kevin Bleakley (6,7), Philippe Buchy (3,8), Arnaud Tarantola (5,8), Philippe Dussart (3), Tineke Cantaert (4), Anavaj Sakuntabhai (1,2). 

 

1. Functional Genetics of Infectious Diseases Unit, Department of Genomes and Genetics, Institut Pasteur, 75015 Paris, France. 

2. CNRS, Unité de Recherche Associée 3012, 75015 Paris, France. 

3. Virology Unit, Institut Pasteur du Cambodge, International Network of Pasteur Institutes, 12201 Phnom Penh, Cambodia. 

4. Immunology Group, Institut Pasteur du Cambodge, International Network of Pasteur Institutes, 12201 Phnom Penh, Cambodia. 

5. Epidemiology and Public Health Unit, Institut Pasteur du Cambodge, International Network of Pasteur Institutes, 12201 Phnom Penh, Cambodia. 

6. INRIA Saclay, 91120 Palaiseau, France. 

7. Département de Mathématiques d’Orsay, AQ2 91400 Orsay, France. 

8. GlaxoSmithKline (GSK) Vaccines, 637421 Singapore, Singapore.

 

Artigo Original: http://www2.cnrs.fr/presse/communique/5211.htm

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