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Entendendo os Rankings de Universidades

 

Ultimamente, tem-se falado muito sobre a classificação (ranking) de universidades a nível mundial. Trata-se claramente de um tema bastante controverso, uma vez que há quem os ame, como também há quem os odeie!

A influência dos rankings é cada vez maior. Contudo, a maior parte das pessoas parece não saber qual a sua real utilidade, quem os compila e como são elaborados. Assim, este artigo pretende contribuir para o esclarecimento do processo de classificação, apresentar alguns resultados de 2016, assim como expressar a opinião do autor sobre os vários aspectos relacionados à classificação de universidades. 

Em primeiro lugar, salienta-se que os rankings apenas englobam uma pequena percentagem (< 2%) de todas as universidades do mundo. Há dados que são enviados pela universidade participante (ex. número de estudantes internacionais versus número de estudantes nacionais), porém, outros dados são obtidos em bases de dados independentes (ex. número artigos científicos publicados em revistas indexadas).

Os rankings de universidades têm sido importantes para estudantes, universidades (ex. gestores, professores, investigadores, etc.), governos e sociedade em geral. Resumidamente, os rankings permitem: monitorização de desempenho, realização de comparações, ajuda a estudantes a decidir em que universidade estudar, distribuição de financiamento por parte do governo, envio de bolseiros para as “melhores” universidades, influência na concepção de políticas/reformas do governo, incentivo à divulgação de dados académicos, influência na escolha de parceiros/colaboradores, influência na reputação (visibilidade e credibilidade) da instituição (marketing), identificação de pontos fortes e fracos, e atracção de melhores estudantes, professores e investigadores.

Os rankings são tipicamente elaborados anualmente. Isto deve-se ao facto de os dados relativos aos indicadores utilizados mudarem de ano para ano. Assim, é necessário consultar os rankings anualmente. Todavia, é pouco provável que, de um ano para o outro, uma universidade de topo altere o seu lugar significativamente em determinado ranking. Por outro lado, a reputação de uma universidade está de alguma forma ligada à sua idade. Geralmente, as universidades mais antigas têm maior reputação do que as novas. Contudo, há casos de universidades relativamente recentes a ocuparem boas posições nos rankings

Destaca-se ainda que é possível elaborar rankings organizados por área de conhecimento, por continente, por país, etc. É assim possível fazer comparações mais específicas. Por exemplo, no ranking geral uma universidade pode estar numa posição acima de uma outra, podendo estar, no entanto, bastante abaixo num ranking organizado numa dada área de conhecimento. Assim, dependendo do objectivo, é importante verificar não apenas o ranking geral, mas também os específicos.

Embora existam vários rankings de universidades, destacam-se os mais conceituados: 

1) Classificação Académica das Universidades Mundiais (Academic Ranking of World Universities - ARWU), também conhecido por “Ranking de Xangai” elaborado desde 2003 pela Universidade Jiao Tong de Xangai (China);

2) Classificação das Universidades Mundiais da Times Higher Education (Times Higher Education (THE) World University Ranking), elaborado desde 2004 pela revista THE (Reino Unido);

3) Classificação das Universidades Mundiais da QS (QS World University Ranking), elaborado desde 2004 pela empresa Quacquarelli Symonds (Reino Unido). 

Para classificar as universidades, a metodologia utilizada deve ser científica, estável e transparente, embora não haja uma metodologia perfeita.  Assim, uma vez que cada ranking utiliza os seus próprios indicadores, a comparação de resultados deve ser feita com bastante atenção. Julga-se que a verificação dos 3 referidos rankings resulta numa melhor estimativa da verdadeira classificação de uma dada universidade. Por outro lado, pensa-se que é crucial entender os indicadores utilizados em cada ranking.  

Assim, de forma a facilitar a compreensão, apresentam-se resumidamente os indicadores utilizados pelos 3 referidos rankings:

 

ARWU ranking (6 indicadores) 

1. Qualidade de educação: Número de antigos estudantes que ganharam o prémio nobel ou medalhas por área de conhecimento (10%)

2. Qualidade dos docentes/investigadores: Número de docentes/investigadores que ganharam o prémio nobel ou medalhas por área de conhecimento (20%)

3. Qualidade dos docentes/investigadores: Número de investigadores altamente citados em 21 áreas de conhecimento (20%)

4. Resultados da investigação: Número de artigos publicados em revistas sobre natureza e ciência (20%).  Nota: Este indicador não é considerado no caso das universidades especializadas em humanidades e ciências sociais, sendo o peso distribuído pelos outros indicadores.

5. Resultados da investigação: Número de artigos indexados na Science Citation Index - Expanded and Social Sciences Citation Index (20%)

6. Desempenho académico per capita da universidade (10%)

 

THE ranking (13 indicadores)

  • Ensino (30%) 

1) Reputação (inquérito) (15%)

2) Rácio docentes/investigadores versus estudantes (4.5%)

3) Rácio doutores versus licenciados (2.25%)

4) Rácio doutoramentos atribuídos versus docentes (6%)

5) Receitas da instituição (2.25%)

  • Investigação (30%)

6) Reputação (inquérito) (18%)

7) Receitas (investigação) (6%)

8) Produtividade (investigação). Número de artigos publicados em revistas científicas indexadas (6%)

  • Citações

9) Influência da investigação (30%)

  • Vertente Internacional (docentes, estudantes, investigação) (7.5%)

10) Rácio Estudantes internacionais versus nacionais (2.5%)

11) Rácio Docentes/Investigadores internacionais versus nacionais (2.5%)

12) Colaboração internacional (2.5%)

  • Receitas das Indústria

13) Transferência de conhecimento (2.5%)

 

QS ranking (6 indicadores) 

1. Reputação académica - questionário a académicos sobre as universidades (40%)

2. Reputação do ponto de vista do empregador - questionário aos empregadores sobre as universidades (10%)

3. Rácio número de estudantes versus número de docentes/investigadores (20%)

4. Citações por docente/investigador (20%)

5. Rácio número de docentes/investigadores internacionais versus nacionais (5%)

6. Rácio número de estudantes internacionais versus nacionais (5%)

  

Como se pode observar, cada ranking é elaborado de acordo com os seus próprios indicadores, sendo os mesmos bastante diferentes. Pode-se concluir que estes rankings assentam essencialmente em indicadores sobre ensino, investigação, empregabilidade, transferência de conhecimento e internacionalização. Salienta-se ainda que é necessário considerar a definição exacta de cada indicador.

Consultando os referidos rankings relativos ao ano de 2016, chega-se à conclusão que os Estados Unidos da América (EUA) lideram os primeiros 10 lugares (ARWU 8/10, THE 6/10, QS 5/10), seguindo-se o Reino Unido (UK) (ARWU 2/10, THE 3/10, QS 4/10). Constata-se ainda que as seguintes universidades (ordenadas pela média das posições nos 3 rankings), constam das primeiras 10 nos referidos rankings

  • Stanford University, EUA (ARWU-2, THE-3, QS-2) (2.3)
  • Harvard University, EUA (ARWU-1, THE-6, QS-3) (3.3)
  • Massachusetts Institute of Technology, EUA (ARWU-5, THE-5, QS-1) (3.7)
  • University of Cambridge, UK (ARWU-4, THE-4, QS-4) (4)
  • California Institute of Technology, EUA (ARWU-8, THE-1, QS-5) (4.7)
  • Oxford University, UK (ARWU-7, THE-2, QS-6) (5)
  • Princeton University, EUA (ARWU-6, THE-7, QS-11) (8)
  • University of Chicago, EUA (ARWU-10, THE-10, QS-10) (10)
  • Institute of Technology Zurich, SUÍÇA (ARWU-19, THE-9, QS-8) (12)
  • University College London, UK (ARWU-17, THE-14, QS-7) (12.7)
  • Imperial College London, UK (ARWU-22, THE-8, QS-9) (13)
  • University of California-Berkeley, EUA (ARWU-3, THE-13, QS-28) (14.7)
  • Columbia University, EUA (ARWU-9, THE-15, QS-20) (14.7)

 

Ou seja, estas universidades são, de acordo com os referidos rankings, as melhores do mundo em 2016. Para referência, apresentam-se a seguir as universidades melhor classificadas (2016) de África, da China, Portugal e do Brasil:

  • Tsinghua University, China (ARWU-58, THE-47, QS-24) (43)
  • Lomonosov Moscow State University (ARWU-87, THE-161, QS-108) (118.7)
  • Universidade de São Paulo, Brasil (ARWU-101:150, THE-201-250, QS-120) (140.7 ?)
  • University of Cape Town, SA (ARWU-201:300, THE-120, QS-191) (170.7 ?)
  • Universidade de Lisboa, Portugal (ARWU-151:200, THE-501:600, QS-330) (327.3 ?)

 

Por outro lado, as universidades africanas que constam em 2016 nos referidos rankings são as seguintes:

  • University of Cape Town, SA (ARWU-201:300, THE-120, QS-191) (170.7 ?)
  • University of the Witwatersrand, SA (ARWU-201:300, THE-201:250, QS-359) (253.7 ?)
  • The American University in Cairo, Egipto (ARWU-, THE-, QS-365) (365)
  • Stellenbosch University, SA (ARWU-401:500, THE-301:350, QS-395) (365.7 ?)
  • University of Kwazulu Natal, SA (ARWU-401:500, THE-401:500, QS-651:700) (484.3 ?)
  • University of Pretoria, SA (ARWU-, THE-501:600, QS-551-600) (526 ?)
  • Makerere University, Uganda (ARWU-, THE-401:500, QS-701+) ( 551?)
  • Cairo University, Egipto (ARWU-401:500, THE-601:800, QS-551:600) (576 ?)
  • Rhodes University, SA (ARWU-, THE-, QS-551:600) (551:600)
  • University of Johannesburg, SA (ARWU-, THE-, QS-601:650) (601:650)
  • University of Ghana, Gana (ARWU-, THE-601:800, QS-701+) ( 651?)
  • Alexandria University, Egipto (ARWU-, THE-601:800, QS-701+) (651 ?)
  • University of Marrakech Cadi Ayyad, Marrocos (ARWU-, THE-601:800, QS-) (601:800)
  • Suez Canal University, Egipto (ARWU-, THE-601:800, QS-) (601:800)
  • University of South Africa, SA (ARWU-, THE-601:800, QS-) (601:800)
  • Al Azhar University, Egipto (ARWU-, THE-, QS-701+) (701+)
  • Ain Shams University, Egipto (ARWU-, THE-, QS-701+) (701+)
  • North-West University, SA (ARWU-, THE-, QS-701+) (701+)
  • University of Western Cape, SA (ARWU-, THE-, QS-701+) (701+)

 

Analisando estes dados, claramente se observa o domínio da África do Sul e do Egipto no contexto africano. Ou seja, das 19 universidades africanas que constam nos referidos rankings de 2016, 10 são sul africanas e 6 são egípcias. Conclui-se ainda que a Universidade de Cape Town foi a melhor classificada em 2016.

Como se pode ainda observar nenhuma universidade angolana consta dos referidos rankings. Considerando os indicadores utilizados, o leitor estará em melhores condições para poder tirar as suas próprias conclusões. Contudo, julga-se que ainda há vários aspectos a melhorar antes que alguma universidade angolana possa constar nos referidos rankings.

Finalmente, podemos concluir que os rankings dependem dos indicadores utilizados e dos pesos a eles atribuídos. Adicionalmente, a estimativa da qualidade de ensino continua a ser a principal limitação dos rankings actuais. Julga-se ainda que os rankings devem ser vistos como estimativas limitadas da qualidade das universidades analisadas. Assim, cabe ao leitor decidir se deve ou não confiar em determinado ranking.  

 

Mais informação

http://www.shanghairanking.com/

http://www.topuniversities.com/

https://www.timeshighereducation.com/

http://www.eua.be/Libraries/publications-homepage-list/Global_University_Rankings_and_Their_Impact.pdf?sfvrsn=4

 

Ricardo Queirós

Doutorado em Engenharia Electrotécnica e de Computadores

Investigador na área de Instrumentação e Medidas

Faculdade de Engenharia - Universidade Agostinho Neto

E- Este endereço de email está protegido contra piratas. Necessita ativar o JavaScript para o visualizar.

https://www.linkedin.com/in/ricardo-queirós-5449106

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A Síndrome de Burnout ou a Falta de Humanização nos Nossos Hospitais?

 

Nas condições actuais de desenvolvimento do nosso sistema de saúde é comum assistirmos a actos e atitudes que se configuram como total ou parcial insensibilidade, falta de profissionalismo, falta de humanismo e outros valores por parte dos profissionais da saúde em relação aos pacientes que supostamente devem assistir e atender.

Começaríamos este artigo com algumas perguntas que o próprio texto responderá:

- Ao que se deve a insensibilidade de certos profissionais da saúde em relação ao sofrimento dos pacientes e dos seus familiares?

- Que efeito tem a sobrecarga, a pressão de trabalho e as longas jornadas de trabalho dos profissionais de saúde no seu desgaste emocional e humano?

- Há conflito de papéis e de interesses na relação profissional-paciente?

- A falta de suporte e de valorização da classe pela sociedade e do estado, propicia a indiferença destes profissionais perante o sofrimento e a morte dos pacientes?

- Que factores podem estar na base da Síndrome de Burnout em profissionais da saúde dos nossos hospitais?

A Síndrome de Burnout (SB) é uma doença ocupacional e que, segundo a OMS, predomina sobre os profissionais da saúde como: médicos, enfermeiros, assistentes sociais, dentistas e fisioterapeutas, além de professores, policiais, bombeiros e demais profissionais que estão sujeitos ao contacto diário com o público e que têm grande carga emocional.

Entre os diferentes factores que podem comprometer a saúde do trabalhador, o ambiente de trabalho é apontado como gerador de conflito, quando o indivíduo percebe o hiato existente entre o compromisso com a profissão e o sistema em que está inserido.

Essa síndrome, conceptualizada como estresse laboral crónico, tem como principais características o desgaste emocional, a despersonalização e a reduzida satisfação pessoal ou sentimento de impotência do trabalhador, que ocorre quando o indivíduo não possui mais estratégias para o enfrentamento das situações e conflitos do trabalho.

Burn, em inglês, significa queimar, out, é algo fora, exteriorizado. O Burnout é caracterizado por um conjunto de sinais e sintomas físicos e psíquicos, consequentes da má adaptação ao trabalho e com intensa carga emocional e pode estar acompanhado de frustração em relação a si e ao trabalho.

A expressão burnout, serve para designar aquilo que deixou de funcionar por exaustão de energia, constitui actualmente um dos grandes problemas psicossociais, despertando interesse e preocupação por parte da comunidade científica e das empresas, devido à severidade das suas consequências, quer ao nível individual, quer ao nível organizacional. De facto, o burnout sendo um estado de esgotamento, decepção e perda do interesse pelo trabalho, produz sofrimento no indivíduo e tem consequências sobre o seu estado de saúde e o seu desempenho, pois passam a existir alterações pessoais, comportamentais e organizacionais.

Esta síndrome acomete, geralmente, os profissionais que trabalham em contacto directo com pessoas, sendo predominante nos profissionais de saúde, o burnout afecta os enfermeiros, em diferentes partes do mundo e em diversos contextos de trabalho, levando-os a desenvolver sentimentos de frustração, frieza e indiferença em relação às necessidades e ao sofrimento dos seus utentes e familiares.

Acredita-se que, se os enfermeiros conhecerem as características, consequências e estratégias de prevenção do burnout, poderão ter uma maior satisfação laboral e prestar cuidados de melhor qualidade e humanismo aos utentes.

A escolha do tema advêm da necessidade de se  abordar o fenómeno, visto que tem se manifestado muito nos últimos tempos nas nossas unidades hospitalares onde se verifica cada vez mais uma ausência de humanismo na prestação de serviços aos utentes derivada de demandas excessivas, que diminuem a qualidade do trabalho, de longas jornadas de trabalho, numerosos turnos, baixa remuneração, convívio constante com o sofrimento, a dor e a morte  de pessoas e a constante exposição ao risco.

O grande problema social relacionado à Síndrome de Burnout em trabalhadores da saúde é o facto de se encontrarem profissionais a trabalhar  de maneira fria e impessoal, sem a dedicação e o envolvimento necessários. Isto pode causar uma diminuição da realização profissional que pode até culminar com a desistência deste profissional. Ou seja, há a possibilidade dos serviços de saúde apresentarem no seio dos seus colaboradores um elevado índice de absenteísmo. Este aspecto pode levar a custos com substituições, necessidade de novas contratações e quebra da rotina assistencial.

Os profissionais da saúde podem estar mais susceptíveis ao Burnout, uma vez que experimentam uma dualidade de papéis e enfrentam uma série de exigências por parte de seus empregadores e chefias, dos pacientes e de si próprios. A Síndrome de Burnout é ainda desconhecida por grande parte dos profissionais da saúde. É necessária uma maior divulgação, pois se os profissionais desconhecem as suas possíveis manifestações e causas, não podem encontrar formas efectivas de tratamento, bem como medidas de prevenção e na maior parte das vezes não dão conta que estão afectados por este mal.

Portanto, um estudo sobre o desgaste crónico físico e psicológico sofrido pelos trabalhadores da saúde de uma unidade hospitalar desperta o interesse de investigadores deste fenómeno por se tratar de um ambiente propício para o desenvolvimento da síndrome e das suas consequências negativas tanto para a assistência aos pacientes, como também para a saúde do profissional envolvido. A continuidade de pesquisas em relação à saúde do trabalhador poderá fornecer dados que elucidem outros factores de risco específicos que desencadeiam o desenvolvimento do desgaste e que poderão dar suporte a uma nova estruturação de estratégias preventivas contra este mal que afecta grande número de profissionais da saúde.

 

Amílcar Inácio Evaristo, Ph.D.

Biólogo e Psicólogo

Especialista em Educação para a prevenção de drogas e promoção de saúde

Professor Associado da Universidade Agostinho Neto-ISCISA (Instituto Superior de Ciências da Saúde) de Luanda

Consultor do Senhor Secretario de Estado da Ciência e Tecnologia

 

 

Fonte imagem: http://saudeexperts.com.br/wp-content/uploads/2015/01/stress-profissional-da-saude_mini.jpg

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